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| 20/07/2009 |
A maior certeza é a incerteza
A maior certeza é a incerteza Você já reparou que as pessoas sempre querem uma certeza? A hora precisa, a quantia exata, o resultado perfeito. Por outro lado, você já percebeu como tudo é tão incerto? Os planos necessitam de mudanças a todo momento, para que se adaptem a novas situações. Os caminhos exigem ser revistos, por causa dos obstáculos. Os relacionamentos reclamam compreensão. Analisando bem, na vida da gente há mais imprevistos do que determinações. E ainda há quem insista em ser inflexível. Os orientais nos dão o exemplo do bambu. Pode chegar a maior tempestade, trazendo todos os vendavais, que o bambu simplesmente se curva. E quando a tempestade passa, ele volta ao seu lugar. As árvores vizinhas às vezes não resistem aos temporais. Principalmente as mais imponentes, as mais rígidas, que têm certeza de poder enfrentar o vendaval. Elas se quebram, coitadas, e vão ao chão, pois não conseguem se curvar ao fato de que a melhor estratégia é a adaptação. Os rios também são sempre citados como exemplos de flexibilidade. Se encontram um rochedo no caminho, tratam de contorná-lo suavemente, em vez de tentar uma escalada improdutiva. Sabem descer da imensa montanha sem sobressaltos, mas atentos às surpresas do trajeto. Os rios deslizam pela planície, saltam de pedra em pedra ou voam, se aparece um vazio pela frente. Eles não se importam com os imprevistos. Nem o bambu, nem o rios precisam de certeza. Eles tomam a melhor decisão, quando a hora chega. Não ficam querendo que não chova, que não vente, ou que não haja obstáculos no dia-a-dia. Não ficam rezando ao deus do bambu, ou ao deus dos rios, para que as intempéries e os empecilhos sejam afastados. Eles compreendem que são situações naturais da vida e que a oportunidade de experimentá-las vai gerar um resultado e um aprendizado. Agora, nós que pensamos, queremos ter certeza de tudo. Posso apostar que isso é apenas o reflexo de uma grande insegurança. Pessoas inseguras buscam firmeza na inflexibilidade. Pessoas inseguras buscam autoconfiança na presunção. Pessoas inseguras buscam convicção na autoridade. Sabe por quê? Para eliminar o questionamento, pois questionamento gera insegurança. Aí chegamos ao problema: sem questionamento não há compreensão. E sem compreensão não há liberdade. Assim, aquele que se apóia na certeza fica escravo das determinações e dos dogmas. Inutilmente, pois segurança não existe: o céu pode cair de repente sobre a sua cabeça. E se estou dizendo que não há certeza, convém duvidar. De qualquer forma, é natural, humano e benéfico hesitar, ter dúvidas, perguntar, compartilhar. Ninguém é uma ilha. Além do mais, insegurança e incerteza é que fazem a vida ficar perigosa, deliciosa, imprevisível.
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 19h47
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| 24/06/2009 |
A vida é um jogo Existe uma relação fascinante entre desejo e destino. Tudo pode acontecer. Por isso as pessoas apostam na sorte. É tentador e parece fácil. Você acredita que num dado momento tudo vai mudar. Você inventa o sorriso da fortuna. Adeus rotina, adeus problemas, adeus necessidades. Você sonha com o inatingível e se entrega ao devaneio. Mas o destino ainda não chegou. Você está apenas no desejo, aquilo que o jogo exige de você, sua mobilização. Você pede cartas. Ou preenche os quadradinhos e espera. Não há o que fazer além da espera. Quando a sorte está lançada, você não tem como interferir. Você pode acreditar ou não. Você pode acreditar completamente e ganhar. Ou pode não acreditar completamente porque tem medo de se decepcionar, de perder. Aí você não ganha. Dizem que esses são os jogos de azar. E azar vem do árabe az-zahar, cujo significado é "jogo de dados", só isso. Há outra forma de jogar. Nesse caso, você deve levar em conta sua liberdade e seu conhecimento, ou seja, você cria uma estratégia. E o que é determinante aqui? A sorte ou a inteligência? Considere as possibilidades do jogo. A liberdade de ação depende de certas regras indiscutíveis. Há movimentos e possibilidades. E a cada movimento correspondem consequências. Você tem de buscar algumas delas, enquanto evita outras. O jogador, para ser bom, necessita de serenidade. É essencial visualizar o alvo, mas sem perder de vista a seta. É fundamental retesar o arco, mas sem causar tensão, para que a força não interfira no resultado. Mais ou menos como repousar na mira, respirar lentamente e afastar a ansiedade, antes de disparar a flecha. A arte consiste em pôr de lado a emoção e cultivar a calma. Não há pressa. Tudo é uma questão de estar atento e ser preciso. Fica difícil? São as regras do jogo. Para obter sucesso, você precisa analisar a situação e obter informações, antes de agir. Deve prever cada passo e descobrir onde vai dar. Compreenda que o impulso, que à primeira vista parece espontâneo, pode levar a resultados imprevistos ou desastrosos. Ele chega a aniquilar a liberdade. Lembre-se de avaliar. Mas não coloque a mente de forma total no processo, se não você ficará refém do pensamento, da teoria, e perderá a determinação que impulsiona. Se você agir com precisão, o final do jogo pode ser previsto. Não há mais a interferência do acaso, apenas a conclusão de atuações minuciosas, pois o jogo da vida segue regras próprias. Se você conhece as possibilidades, consegue jogar com sabedoria. E a verdadeira sabedoria está na habilidade de manipular as possibilidades. Dependendo de sua habilidade, você se torna uma pessoa livre. Tudo passa a ser um divertimento, uma aventura, um jogo de cartas marcadas.
Qual o desejo? Qual o destino? Depende só de você. Jogos reais exigem estratégia. Neles prevalece a inteligência. Jogos ilusórios exigem sorte. Neles prevalece a incerteza.
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 18h23
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| 09/06/2009 |
A vida prega peças na gente Provavelmente alguém já lhe disse que aquilo que acontece com você é decorrente de suas escolhas. A afirmação tem o objetivo de chamar sua atenção para a responsabilidade de seus atos. Ação e reação. Simples como café com leite. Mas o problema aparece quando a mistura chega muito quente ou fria demais e você precisa resolver a questão, sem tempo de obter a temperatura ideal. Surgem duas alternativas: você engole de qualquer jeito ou desiste da xícara. Eu diria que você não tem escolha. Vamos partir novamente do mesmo princípio. Mesmo que você faça um X na opção que julga mais conveniente, mais lógica, mais natural, mais benéfica, mais sensata, como é que você pode prever um desdobramento favorável, quando entram variáveis que você não consegue controlar? Pessoas, por exemplo. E agora estou falando de relacionamentos e todas as suas implicações geradas por sentimentos e emoções. Nesse caso, você se vê mergulhado em um rio caudaloso que ninguém sabe onde vai dar. Provavelmente no oceano. Pois bem, é lá que você se perde, seja na intensidade das ondas, seja na realidade das profundezas. E nessa hora não adianta saber nadar. Há o perigo de tubarões famintos que ameaçam devorar você, ou de correntes marítimas prontas a determinar rumos incertos. Eu diria outra vez que você não tem escolha. Os conselheiros de plantão trazem na ponta da língua que você pode escolher ser feliz, manter uma convivência harmônica, viver um grande amor. Ou não. Discutindo a afirmativa, vamos acreditar, primeiro, que você quer sempre o melhor. Mas você é passível de enganos, de ilusões, de interpretações atrapalhadas. E de repente você se vê no meio de um emaranhado de vulcões e vendavais indomáveis. A essa altura, devo apelar para o imponderável e dizer simplesmente que a vida prega peças na gente. Independentemente da sua preferência, dos seus objetivos, das suas propostas, da sua boa intenção, algo inusitado acontece. Você não quer acreditar. Você não sabe bem o que fazer. E fica então imaginando coisas que talvez possam levar ao final satisfatório, à solução desejada. Escolhas? De novo? Nossa natureza é um caldeirão de contradições. Queremos e não queremos. Por isso nossa mente nos aconselha com o pensar. Nossos pensamentos invadem o espaço do sentir. Nossos sentimentos nos agitam. Nossa inquietude nos fragiliza. Nossa fragilidade nos imobiliza. Assim, ficamos atônitos, reféns de situações que poderiam ser evitadas. E agora você se pergunta: como? Tudo continua. Você usa a experiência para refinar as escolhas. Responsabilidade. Ação e reação. Já sabemos que não é tão simples assim. Nem todos reagem da mesma forma ao mesmo estímulo. Nem todos reagem da mesma forma às mesmas palavras. Nem todos reagem da mesma forma ao mesmo desafio. E, além de tudo, existem estados afetivos, entusiasmo, sonho, prazer, e todos eles conseguem nos enganar. Então, fiquemos com a intuição. Ela é tão imponderável quanto as peças que a vida prega na gente.
Categoria: Propor
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 11h27
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| 20/05/2009 |
Nada é de verdade Todas as ocasiões em que levei algo a sério, fiquei tenso, preso à obrigação de tomar uma atitude, ansioso quanto à responsabilidade dos meus atos e assustado pelo medo de errar. Por exemplo: se ao escrever este texto começo a imaginar que você vai acessar meu blog e ler meus pensamentos, posso ser tomado por uma inquietação capaz de tolher minha espontaneidade. Em geral, quem diz que não sabe escrever é vítima desse pânico. Se você fala, tudo bem, as palavras se perdem no ar, mostram o sentido, o significado, mas não há registro, você fica natural. No caso da escrita, surge uma espécie de documento, as pessoas têm a oportunidade de reler e, quem sabe, fazer algum tipo de cobrança. Pronto, ficou tudo muito importante, você sente que precisa ter cuidado, o bom senso lhe diz que você não deve se expor, que não é conveniente. Felizmente existe outra abordagem que resolve o problema. Você se convence de que tudo é apenas uma brincadeira. Aí você se solta. E a brincadeira não se resume só a escrever, passa a fazer parte de seu dia-a-dia. Então você brinca de trabalhar, de ser eficiente, de obter resultados. Você brinca de ser paciente, comunicativo, tolerante, perfeccionista, responsável. Você brinca de amar, de ser feliz e até de ser austero. Se é uma brincadeira, não há medo de errar. Agora, falando sério, de tudo que existe, o que sobra para ser realmente preocupante? O que pensam a nosso respeito? O tempo que voa? Ora, a liberdade que a brincadeira proporciona sugere que os acontecimentos, em sua maioria, são de mentira. O que parecia importante há dois meses se transformou em quê? Os fatos do passado um pouco mais remoto viraram sombras, se já não desapareceram por completo. De verdade, mesmo, fica nossa viagem cósmica a bordo de um planeta que gira pelo espaço sem fim rumo ao desconhecido. Assim, só nos resta olhar pela janela e contemplar a paisagem na qual estamos inseridos. Desse ponto de vista, podemos observar a nós mesmos sem o rigor da crítica áspera, sem exigências incisivas, como simples seres humanos, pessoas simultaneamente frágeis e fortes, inseguras e determinadas, mas dispostas a encarar com bom humor as regras dessa grande brincadeira que é viver. Fica evidente que tudo vai dar certo, pois se trata de puro divertimento. Não importa o resultado, só o envolvimento lúdico com a ação. Hoje, mais uma vez, foi assim comigo. Estou muito satisfeito com o entretenimento que esta crônica me proporcionou. Se foi prazeroso para você, melhor ainda. De qualquer forma, muito obrigado pela sua paciência de me ler até aqui e me perdoe por brincar com as palavras sem levar a sério suas mais legítimas preocupações.
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 18h55
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| 27/04/2009 |
No mundo das proibições
A idéia surge na minha cabeça de repente. Não direciono minha vontade com nenhuma determinação do tipo “quero pensar isso e aquilo”. Sem mais nem menos chega um questionamento, um conceito qualquer, uma indignação. O fenômeno pode ser causado por um fato aparentemente sem importância, uma cena corriqueira ou alguma palavra ouvida ao acaso. Assim, ocorrem no meu pensar certos desencadeamentos que levam a novas interrogações ou conclusões. Às vezes são a respeito da vida, da natureza humana, dos sentimentos. Acredito que têm a ver com tudo que li e estudei, embora em alguns casos pareçam mensagens vindas de um local invisível, um depósito de tudo que já foi pensado e falado, desde que o mundo é mundo. Acho que escapam de lá os assuntos que dão início ao cismar. E tudo acontece nas horas mais inusitadas e em lugares que também não são escolhidos. Por exemplo, uma criança começa a correr na rua e o pai lhe diz: “não corra”. A criança obedece, mas está visivelmente contrariada. Aí surge em mim uma dúvida sobre a legitimidade da proibição. O fato serviu apenas para acionar a reflexão. O que é proibido provém de uma autoridade. E quem a reveste de tal poder? No caso do pai, é incontestável que existe um cuidado em relação à fragilidade da filha, seja física, ela pode cair e se machucar, seja em relação a sua imaturidade, que ainda não consegue prever erros e acidentes. De qualquer forma, há a inconsciência do mais fraco subordinada à dominação do mais forte. No nosso caso, de pessoas adultas, muda alguma coisa? Claro que não. O controle social, e principalmente o religioso, criam regras de moral e conduta que afrontam até sua vida íntima. Você não pode isso e não pode aquilo. E sem nenhuma explicação convincente. A maioria se conforma, não tem consciência, não cresceu ainda, não faz perguntas sobre o porquê das coisas. Veja o caso da sexualidade, uma função absolutamente natural transformada em pecado. Se o mentor lhe diz que não é para você enfiar o dedo no nariz, você consegue obedecer. Você pode passar o resto da vida sem nem tocar o nariz, e assim acaba se livrando dele. Mas se o conselheiro determina que você está proibido de ter relações sexuais, cria-se um problema. A energia sexual, por sua característica ligada à vida e à preservação da espécie, é tão poderosa que você simplesmente não vai conseguir anulá-la. Não há como controlar. Então você precisa voltar ao mestre várias vezes para pedir perdão. Forma-se uma dependência. Pronto, você está definitivamente atado à corrente que o prendeu. Perceba quanta proibição ronda suas decisões. Mais: observe que ela está ligada a uma soberania. Há sempre alguém pronto a lhe dizer o que você deve ou não fazer. Puro atrevimento. E por isso pergunto: precisamos de tutores? Será que não somos suficientemente maduros para empunhar o leme que nos conduz pela vida afora? Como última alternativa, resta a desobediência. Você sempre pode desobedecer. E aqui está a sua liberdade.
Categoria: Questionar
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 20h09
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| 03/04/2009 |
Inconsistente e inexplicável Ao longo dos séculos, aprendemos a considerar somente os cinco sentidos. E tudo que possa transcender esse aspecto da nossa racionalidade não é aceito por nós. Estamos presos pelos limites da razão. Somos reféns da lógica. Nem a intuição, que ninguém ousa negar, é levada a sério quando nos defrontamos com situações decisivas. Uma voz interior, que pode ser também um sentimento ou sensação, às vezes chega e diz o que precisamos ouvir. Normalmente não lhe damos atenção, pois não é racional alguém se guiar por algo tão inconsistente e inexplicável. Mas, analisando bem, o que é consistente e explicável nesse turbilhão de enigmas, se não há elucidação para a maioria das coisas que acontecem? O comprometimento com o cotidiano não nos deixa ver o mistério que nos envolve. Apegamo-nos aos hábitos, às crenças, à coerção coletiva, e tudo nos leva cada vez mais em direção ao limitado. Agarramo-nos à rotina e às aparências para fugir de perguntas quanto ao propósito de nossa vida, em vez de fazer com que nossa passagem pelo mundo seja algo relevante. Importa muito mais o sucesso, o estilo, a moda, a sofisticação, itens importantes só aos olhos dos outros. Há um desinteresse profundo pela vida interior, que só é lembrada quando se busca na terapia uma forma de acalmar sintomas desagradáveis como a ansiedade, o medo, a inquietude. Fomos treinados para viver em uma sociedade insana. Preferimos ser liderados. Escolhemos transferir responsabilidades. Cultuamos o superficial. Adotamos códigos de comportamento que nos levam cada vez mais para fora e nos afastam da luta contra as próprias fraquezas, única forma de aceitar a si mesmo e engendrar, com disciplina, a mudança profunda que se refletirá no todo. Os meios de comunicação colaboram ao valorizar banalidades. Os apelos são tantos e tão grandes que preferimos abraçar a cultura dominante, adotar uma postura intelectual e rotular de exótico o que não podemos compreender, criando uma defesa contra os questionamentos. Até o homem culto segue o rebanho, para não ser tachado de ingênuo. Aplaca a própria consciência ruminando teorias aceitas, enquanto alardeia falso inconformismo. Se assume uma postura contra a sociedade, por exemplo, e desfralda a bandeira da rebeldia, está sendo dominado por aquilo que pretende combater, da mesma forma que o inculto, completamente passivo, no outro extremo. Vítima da emoção, que o leva a consumir e ser consumido, o homem moderno constrói um ego imenso, acredita na própria importância, como se nunca fosse morrer, e se rende a bobagens que logo serão substituídas por outras. Anda em círculo, sem perceber que o círculo é imenso e parece um caminho reto. E isso também é inconsistente e inexplicável.
Categoria: Pensar
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 11h49
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| 26/03/2009 |
A imposição do tempo útil Quanto do seu tempo você gasta consigo mesmo? Antes de responder, esqueça as obrigações banais que inundam seu dia-a-dia e parecem não ter fim, como as atividades domésticas, por exemplo. Esqueça também tudo que você faz por obrigação. Tente se lembrar daqueles momentos únicos, quando não há nada para fazer e você pode simplesmente olhar as nuvens, se quiser, ouvir o canto dos pássaros, se houver, ou saborear sem pressa uma taça de vinho. Quantas vezes você conseguiu se sentar no sofá, na grama do jardim, no banco do parque, completamente relaxado, com o olhar perdido no vazio, sem pensamento fixo, sem planos para os próximos minutos e, o que é mais importante, sem nenhuma sensação de culpa? Quantas vezes você conseguiu olhar para a própria vida como algo que tem vida própria, e se alegrou com isso, sem ter de buscar significados para ela a partir do que acontece na rua, nas festas, nos bares, e sem ficar atormentado com a velha noção de que a vida tem de ter utilidade? Desde cedo nos foi ensinado que precisamos produzir, e que aproveitar o tempo é fazer algo ou ganhar dinheiro, como se você não pudesse aproveitá-lo com o simples desfrute, que consiste em sentir a plenitude do momento sem nenhum objetivo, sem a intenção de obter vantagens. Talvez você ainda não tenha passado pela experiência do ócio. Posso adivinhar que você não consegue ficar à toa. Você trabalha constantemente, desde muito cedo. Quando não trabalha, pensa no que vai fazer. Enquanto descansa, logo arranja um passatempo. Mesmo durante o sono, sonha com o trabalho, ou seja, não sobra tempo nem para sonhar. Sim, o sono, ele sempre aparece como o último recurso, a saída, o refúgio. Você está tão habituado com a agitação que, ao sentir a aproximação da calma, sente vontade de dormir. É como se não tivesse autorização para os momentos de folga. Ou como se o ato de dormir fosse também algo a fazer. Antes de ficar completamente estressado, saiba que isso acontece porque você foi educado para trabalhar. Vamos ser realistas? A glorificação do trabalho foi engendrada, a partir do século XVI, pelos patrões, é claro, que ainda fizeram o favor de colocar dentro de cada cabeça o conceito de tempo útil. Sim, o trabalho dignifica e enobrece, embora a nobreza nunca tenha trabalhado. Mas vamos separar as coisas. Existe aquilo que a gente faz porque gosta e aquilo que a gente faz porque é preciso. Será que não é possível conciliar os dois? Trabalhar por prazer nem é trabalho, é diversão. E depois, na hora do descanso, podemos praticar o contrário do que nos ensinaram: a conversa frouxa, a poltrona macia, o culto ao tempo inútil. É isso aí. Pense na possibilidade de encerrar o expediente e não se ocupar de absolutamente nada. No começo, pode parecer difícil. Nesse caso, comece imaginando como seria bom acordar um dia com a sensação de coisa alguma para fazer. Assim você se acostuma com a idéia e aprende a selecionar algumas horas para gastar consigo mesmo.
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 10h00
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| 20/03/2009 |
Uma visão orgânica do todo Todos nós temos uma visão de mundo muito parecida. Interpretamos da mesma forma tudo que nos cerca. Montanha é montanha, mar é mar, árvore é árvore, bicho é bicho, gente é gente. Separamos tudo que existe. De um lado, vemos os seres vivos e, de outro, os seres inanimados. A divisão prossegue em uma fragmentação cada vez maior. Estamos sempre diferenciando, isolando, discriminando, catalogando. Pensamos em termos de certo e errado, corpo e alma, bem e mal, saúde e doença, vida e morte. Assim, equilibramos dois extremos como se fossem coisas distintas, elementos independentes, e fazemos julgamentos baseados nesse tipo de interpretação. Não nos damos conta de que a alegria se transforma em tristeza e a tristeza se transforma em alegria. Tudo aparece como uma situação estruturada e estática. Temos a mente separada do corpo. A civilidade separada da natureza. Os recursos naturais separados conforme sua utilidade. Os indivíduos separados por talento e profissão. O sexo masculino separado do sexo feminino. Os homens separados por nações, ideologias, crenças e raças. Na verdade, o homem separado dele mesmo e do Planeta, gerando poluição, preconceitos, violência, crises econômicas, sociais, além de todo tipo de confrontos. Ocorre que o mundo está sempre em perpétua mudança, uma transformação contínua que nunca chega a um termo e jamais se conclui em algo pronto e acabado. O movimento constante é proveniente da interação dos opostos, ou seja, um extremo se transforma no outro. Eles se atraem e criam a unidade. Depois que o homem conseguiu penetrar no mundo submicroscópico e realizar experimentos rigorosos, sofisticados e precisos, teve a comprovação de que tudo que existe pertence à mesma natureza una, à mesma realidade indivisível. O que podemos sentir são meros aspectos. O que podemos perceber são apenas manifestações. A nova visão de mundo que a Ciência nos apresenta é um sistema de componentes dinâmicos e inseparáveis, onde o ser humano está incluído. Tempo, espaço, energia, matéria, espírito, nada está isolado, enquanto flui em eterna mudança. Agora ficou científico afirmar que tudo é orgânico, ecológico, cósmico e uno. Ainda se passará muito tempo até que essa visão de mundo seja incorporada ao nosso cotidiano. Durante séculos fomos moldados por princípios lógicos, leis inquestionáveis, sistemas imutáveis. Mas sempre existem aqueles que revolucionam. Por isso, ter acesso a uma nova forma de pensar é uma necessidade fundamental. Por meio dela, a natureza das transformações manifesta-se em vida, entusiasmo, movimento, circulação, uma dinâmica que abastece o raciocínio com uma forma de ver que está além dos velhos padrões. É como viajar em busca de descobrimentos.
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 21h23
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| 14/03/2009 |
Jogando com os opostos Quando duas pessoas vivem juntas, mas já perderam a cumplicidade, a sintonia, a força de atração, e nem mais conversam, só trocam palavras corriqueiras sobre o lado prático do dia-a-dia, esse estar perto pode ser equivalente a viver longe demais, uma distância quase impossível de ser percorrida. E nem estamos falando dos casos extremos, que permitem a entrada de sentimentos hostis prontos a revolver certas mágoas e desenvolver uma agressividade que pode ser sutil como a ironia, pesada como a indiferença ou cruel como as atitudes que ferem. Aí o perto se transforma em um ponto situado a milhares de anos-luz, ou seja, torna-se praticamente inconcebível. O contrário também acontece. O longe pode ser uma proximidade intensa, mistura de fervor instantâneo e presença viva, se um quiser o outro, se esse querer se manifestar com energia, se o desejo contiver a vitalidade dos primeiros dias, se houver afeição verdadeira. A separação física será apenas um detalhe dolorido, uma tatuagem que ainda não cicatrizou. Então a saudade fará crescer a sensação de incompletude. Esse estado criará o desejo de uma experiência afetiva que se destacará como coisa essencial. Serão criados os laços imaginários que apertam e unem os corações. Será produzida uma seiva invisível para alimentar a necessidade do olhar e do toque. Assim, mesmo afastados, um estará dentro do outro. Mais perto, impossível. Essa proximidade permanecerá para sempre? Sim, desde que o sempre caiba dentro do hoje e dure eternamente. Mas o problema é que o hoje só vira sempre quando se repete indefinidamente. Pelo menos é assim que nós entendemos. Ninguém imagina um hoje suficientemente grande para conter todos os acertos e todos os absurdos, todas as teorias e todas as tentativas, toda suficiência e todo desentendimento. A verdade é que o sempre pode ser hoje, e o hoje pode ser para sempre. Isso é tudo? Claro que não. Tudo pode ser nada demais, dependendo de como você olha, pois dentro de cada pessoa existe um vazio onde tudo se esconde. E tudo que se esconde pode não ser nada, porque se fosse algo forte e autêntico, gostaria de se mostrar ao mundo. Assim, somos tudo e somos nada, já que nada pode ser tudo que existe. Ficou muito complicado? Só aparentemente. Na realidade, fizemos apenas um jogo de oposições utilizando palavras simples e argumentos óbvios, para demonstrar que o simples pode parecer complicado quando manipulamos as oposições, ou quando vamos de um lado para o outro como o náufrago agarrado a um pedaço de madeira. E nós fazemos isso o tempo todo. Jogamos com nossas tristezas e alegrias, com nosso cansaço e disposição, com nossos caprichos e determinações, com nosso desânimo e entusiasmo. Usamos frases dúbias e ninguém consegue entender o real significado de nossa presença ou de nossa ausência. Por isso somos assim, completamente perceptíveis e perfeitamente incompreensíveis.
Categoria: Pensar
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 09h29
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| 05/01/2009 |
A lição dos pombos Ícaro, filho de Dédalo, que colou com cera um par de asas às costas, com o propósito de fugir voando do labirinto de Creta, morreu ao se aproximar do Sol, pois a cera derreteu. Mas sua ousadia não foi em vão. Morrendo, imortalizou-se como símbolo do sonho humano de voar. Esse sonho nos acompanha desde que o primeiro pássaro realizou a façanha. Naquele dia, nasceu em nós uma inveja meio poética, meio aventureira, que alimentou a idéia do vôo como algo emocionante para a ave. Passamos a supor que os animais alados desfrutam do prazer indescritível de vencer a força de gravidade e se deslocar velozmente, como o vento, repletos de enorme satisfação, à beira do êxtase. Como somos ingênuos! As aves voam apenas porque precisam se alimentar. Não deve haver nenhuma sensação extraordinária no meio de locomoção que lhes pertence por natureza. Quer uma prova? Observe os pombos, que catam comida nas portas dos bares e insistem em caminhar, mesmo tendo asas. De tanto comer na rua, ficaram a tal ponto preguiçosos que só ganham os ares quando os carros avançam sobre eles. Alguns sucumbem, pois deixam a fuga aérea para o último instante. Os pombos estão virando aves terrestres. E talvez daqui a alguns milhares de anos acabem se esquecendo completamente de como era fácil percorrer distâncias estando acima dos obstáculos. Fico imaginando o pombo mais idoso do pombal relatando aos netos a velha lenda do tempo em que os pombos voavam. Será que aconteceu o mesmo com as galinhas? Posso supor como seria o mundo das galinhas muito antes da invenção do milho e da minhoca, um tempo anterior ao galinheiro e à ração. A galinhada em bando, sobre nossas cabeças, cacarejando a uma só voz e riscando o céu rapidamente como quem foge de alguma panela futura. Hoje, galinha ainda consegue correr. E os patos? Lentos e desajeitados, foram buscar refúgio na água. Ah, diria você, os patos selvagens voam. Sim, voam e migram. Claro, aí está a diferença: são selvagens, conseguiram escapar da influência das pessoas civilizadas, não foram domesticados. Já sei: eles se rebelaram. Isso mesmo, graças a sua rebeldia, conseguiram evitar o cativeiro, a comida fácil, a proteção que tem dois lados, da mão que afaga e da mão que apedreja, como diria Augusto dos Anjos. Os patos selvagens só podem ser abatidos a tiros. Não há ninguém para lhes torcer o pescoço no domingo de manhã. No nosso caso, de gente que caminha com os pés no chão, e apesar dos pombos, que tentam nos desiludir, espero que sempre prevaleça em nós o desejo de voar. Voar em outro sentido, não por inveja dos pássaros. Nem voar pelos ares, que já pertencem aos aviões. Mas voar em todas as direções, com a criatividade transformada em realização. Voar com asas próprias, que não precisam de cola. Voar com as asas da arte, do amor, da sabedoria. Voar por rebeldia pura, como os patos selvagens, para lugares cada vez mais distantes da insensatez.
Categoria: Questionar
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 17h54
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| 18/12/2008 |
No equilíbrio das formas As muito lindas que me perdoem, mas a imperfeição é fundamental. Há algo de humano na celulite, no pneuzinho, na barriguinha. Há algo de humano em dezenas de detalhes que aniquilam o padrão imposto pela indústria da moda. Há algo de humano naquilo que diferencia e individualiza, como um dedo meio torto, por exemplo. Além disso, podemos destacar incontáveis características que não têm formas, como o jeito de olhar, o tom de voz, a energia que emana, a força da presença, o envolvimento sedutor, o mistério, a sensualidade. Mulheres inesquecíveis sabem dominar esses atributos de modo que as minúcias passem completamente despercebidas. A importância da balança no mundo feminino assumiu proporções catastróficas. Esse instrumento que determina o peso dos corpos passou a exercer um controle silencioso e absurdo sobre a maioria das mulheres. Sua ditadura impõe um regime cruel até às mais jovens. E de forma desnecessária, como se a anorexia fosse uma virtude e o espelho um inimigo. É óbvio que a magreza permite certa elegância. Mas vale a pena torcer o nariz para as iguarias, depreciar o sorvete, difamar o chocolate, reprimir o desejo quase incontrolável de comer, só por causa da aparência esguia que submete você ao modelo da televisão e dos comerciais? Deve haver, além da estética, outros motivos para uma alimentação saudável. Mulheres de revista, todos sabemos, passam por três tipos de retoque: um na clínica do cirurgião plástico, outro nas mãos da maquiadora e o terceiro na tela do computador. O resultado fica bonito, esteticamente admirável, mas perfeito demais, artificial, inatingível. Ora, estamos falando de algo virtual, que não merece causar inveja. Portanto, relaxe e divirta-se. Assuma tudo que for intenso. Depois, transporte essa atitude com leveza para a vida, pois o dia-a-dia deve ser, no mínimo, uma grande celebração. Os padrões de beleza se sucedem como os dias da semana. Bobagem correr atrás da silhueta que arrancará suspiros somente das mulheres invejosas. Se você quer chamar a atenção dos homens, saiba que eles, em sua maioria, preferem as formas arredondadas. E mais: os homens não declaram, mas acham excitante quando há um pequeno exagero, aquele capaz de provocar voluptuosidade, e que está reservado só às mulheres mais ousadas.
Categoria: Questionar
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 10h56
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| 06/12/2008 |
A importância do que não sabemos Estamos acostumados com o claro do dia e não vemos os horizontes para além dos quais a noite se estende. Assim, deixamos de interagir com o que está oculto, aquilo de que normalmente só ouvimos falar. Ficamos na varanda iluminada ouvindo os animais noturnos e não nos atrevemos a dar um passo fora do foco de luz, mesmo que a claridade seja tênue. Lá fora reside o grande mistério que mete medo, o enorme inconsciente que insiste em se fazer notar. E na verdade o que transforma aquela presença em algo assustador é nossa incapacidade de aceitar sua existência tão real. Por isso, fechamos os olhos para o que nos amedronta e os abrimos para o corriqueiro, em busca de acontecimentos cotidianos. Procuramos abafar com nossos ruídos caseiros e urbanos todos os outros sons que não conseguimos identificar e que por isso mesmo incomodam. Queremos nos ater ao óbvio, às minúcias, agarrando com unhas e dentes o que nos pertence de concreto, encerrem ou não algum valor mensurável. Temos necessidade de nos amarrar ao que nos rodeia, formando a teia que imobiliza. O resto passa a não importar, enquanto fortalecemos nossa tendência a ignorar os valores sutis, os momentos de reflexão, o reconhecimento do que é inútil ou transitório. E isso acontece porque, na tentativa de tatear apenas o que nos rodeia, invertemos as prioridades e deixamos de notar que o universo contém a Terra, o desconhecido contém o conhecido, o silêncio contém os barulhos. Contraditoriamente, hoje tudo é mais. Raciocinamos em termos de quantidade. Mais rápido, mais eficiente, mais rico, mais desenvolvido, mais vendido, mais superfantástico. Assim, perdemos contato com o que é energético e veemente, com o que é fundamental e profundo. Tudo nos remete para fora. E nossos sentidos se extraviam no turbilhão da variedade. O que precisamos é de intensidade. Viver intensamente, sentir intensamente, olhar intensamente, tocar intensamente. E, de forma indispensável, perceber intensamente o outro lado, aquele que se esconde na escuridão. Mora lá tudo que ignoramos ou rejeitamos, seja por medo ou porque não queremos saber. Devemos reconhecer que o que não sabemos é tão importante quanto o que sabemos. Para começar, é maior, e esse fato, de certa maneira, lembra quantidade, nossa velha amiga. Além disso, é estimulante, desperta a curiosidade, pode nos impulsionar para as realizações. O que já sabemos ficou antiquado. O que não sabemos é o novo. Você carrega a experiência, mas não precisa olhar para trás. É muito difícil seguir em frente sem tirar os olhos do retrovisor. O que não sabemos cria os mitos, escreve as histórias, compõe as músicas, realça as cores, esculpe a beleza, desenha as metáforas mais poéticas do ambiente íntimo. O que não sabemos faz brotar em nós o ímpeto de seguir adiante, de buscar aventuras, de encontrar alegrias e de marcar encontros com nossos melhores sonhos.
Categoria: Propor
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 18h03
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| 24/11/2008 |
Quando tudo vira nada Nada como o pensamento simplista, isento de intelectualismo, para a gente viajar em certas questões aparentemente bobas, mas que despertam curiosidade. Por exemplo, você coloca uma fruta no lugar mais limpo de sua casa e a deixa lá por alguns dias. De repente, você percebe que ela está bichada. Vem a inevitável pergunta: de onde surgiram aqueles animaizinhos nojentos? Da própria fruta? A sabedoria caipira diz que bicho de goiaba é goiaba. Então deve ser. E o bicho come a goiaba, ou seja, a fruta devora a si mesma. Um processo antropofágico, ou melhor, frutifágico. Vamos deixar a fruta na geladeira. Agora, você pega uma porção de cereais, coloca em um saco plástico e fecha do modo mais hermético possível. Acontece a mesma coisa. Os grãos viram pó. Tudo que eles continham de poder nutritivo serviu de alimento para alguns seres que brotaram ali. Talvez seja possível concluir que a vida simplesmente aparece ao encontrar condições apropriadas. Assim que esse estado deixa de existir, ela acaba. Pense nos dinossauros. Logo que ficou pronta, a Terra resolveu abrigá-los. No momento em que não os quis mais, fez com que desaparecessem. Ah, a paleontologia explica. Acontece que ela é uma ciência especulativa. Os estudiosos dizem que os dinossauros tiveram aparecimento e desaparecimento relativamente súbitos. Na verdade ninguém sabe realmente o que os exterminou. Vários autores sugerem o impacto de um enorme asteróide, ou radiação cósmica, ou deriva continental, ou enchentes. Encurtando o assunto, qualquer que seja a razão, as condições de vida, para eles, chegaram ao fim. Vamos mais longe nessa história? Como é que tudo teve início? Uma das teorias científicas mais aceitas diz que o cosmo surgiu de uma explosão inicial que liberou incontáveis galáxias contendo mais de 100 bilhões de estrelas cada uma. Antes do começo, o cosmo seria menor que um átomo, mas muito denso, e contendo tanta energia que o Big Bang foi inevitável. A partir dessa idéia, cientistas de grande credibilidade acreditam que o Universo teria nascido e crescido simplesmente do nada. Como o bichinho da goiaba? Existe uma palavra adequada para aquilo que ninguém consegue entender: probabilidade. Quando há uma perspectiva favorável, o fato ocorre. Certezas absolutas não têm lugar no mundo mágico que nos rodeia. Mitologias de todos os povos e épocas tentam explicar a origem da vida. E suas narrativas parecem contos de fadas. Por outro lado, se você quiser raciocinar seriamente, não vai chegar a lugar algum. Gostou do exercício mental? Pois foi mesmo apenas um exercício. E isso deve ficar bem claro, antes que biólogos e físicos nos afrontem com termos ininteligíveis, para nos convencer de reações químicas, microorganismos e fórmulas matemáticas irrefutáveis. Só queremos brincar com o pensamento simplista e as perguntas sem respostas. Isso é tudo. E o tudo, pelo jeito, é nada.
Categoria: Pensar
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 14h40
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| 21/11/2008 |
Inconstantes e Incoerentes
Às vezes, desejamos ardentemente uma coisa ou um acontecimento, até que na semana seguinte já não desejamos tanto assim e, alguns meses depois, nem nos lembramos mais do assunto. Em alguns momentos, queremos algo porque é vital para nós, mas percebemos, no instante seguinte, que não era tão essencial assim, talvez nem mesmo necessário. A não ser que seja uma determinação atávica, dessas que impulsionam a pessoa pela vida afora, mas que também não merece confiança total, queremos e não queremos. E aqui tudo pode ser classificado, desde a marca do carro novo até a música que toca no rádio ou o cardápio do fim de semana. Pode parecer falta de personalidade essa troca constante de opinião, mas será que é realmente necessário ser coerente? Nós acordamos de um jeito e vamos dormir de outro. Sem contar todas as mudanças que ocorrem durante o dia. Se em determinadas situações um aperto no peito ou um frio na barriga incomodam, minutos depois pode estar tudo certo, ou vice-versa. Quem consegue entender a química cerebral? E a avalanche de pensamentos? Quem consegue lidar com todas as emoções que nos assaltam por todos os lados? A gente ri e relaxa. É a melhor maneira de tentar compreender a arte de viver. Principalmente sem levar tudo tão a sério. Porque é muito fácil proceder de uma forma que não tem nada a ver com aquilo em que a gente acredita. Você pode ser indelicado com a pessoa que ama. Pode magoar um de seus melhores amigos. Pode dizer absurdos simplesmente porque quis se defender. Ou pode deixar de falar palavras mágicas e carinhosas. Um abraço diz tanto. Um sorriso, um olhar, um toque mais vigoroso. E no entanto nem sempre estamos atentos. A maior parte do tempo, ficamos ruminando nossos problemas, como se eles pudessem realmente ser digeridos. Ah, é muito fácil querer se transformar numa ilha. Difícil é ignorar o oceano que nos rodeia, pois é de lá que chegam os estímulos e as ameaças. Somos terríveis e incompletos, isso precisa ficar bem claro. Se não, como vamos nos perdoar? Como vamos aceitar nossas falhas e fraquezas, nossas covardias, nossa falta de modéstia, nossa falta de inocência? Como vamos encarar os pensamentos inconfessáveis que ousam nos procurar tarde da noite, enquanto o sono não chega? Ora, na manhã seguinte, você abre os olhos e grita para si mesmo: coragem! E salta da cama como quem faz isso pela primeira vez, e encara os próprios desejos, mesmo sabendo que eles vão mudar de repente, ao primeiro vento, porque você é incompleto e não pode desejar a perfeição. Então você considera que não está sozinho, que isso acontece com todo o mundo, que faz parte da natureza humana ser inconveniente ou ser generoso, ser rude ou gentil, indiferente ou caloroso. E você passa a não se incomodar mais com as suas contradições, mesmo que elas deponham de forma definitiva contra a imagem romântica que você possa ter de si mesmo.
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 15h38
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| 20/11/2008 |
Devoradores e Devorados A luta pela vida começa cedo. E estamos aqui porque vencemos aquela corrida dramática pela fecundação. Depois, nove meses de descanso. Alimento pronto, via cordão umbilical, som de água se movimentando, em seguida o trauma do nascimento. Deve ter sido muito difícil abandonar o sossego e ser lançado no dia-a-dia, cara a cara com o desconhecido. A luta pela vida é uma constante. Estudar, arrumar trabalho, escapar de todas as armadilhas do destino, evitar acasos perigosos e situações que escondem pessoas mal-intencionadas e bandidos prontos a esfolar nossa pele. Contornar circunstâncias de confronto, tentar harmonizar os relacionamentos, conjurar os acidentes. E ainda conseguir dinheiro para se vestir e comer. A luta pela vida é a guerra pelo alimento. Plantas comem terra. Enfiam suas raízes na carne do planeta e sugam os nutrientes que necessitam. Animais comem plantas e bichos. Metem os dentes nos organismos mais indefesos e engolem o que podem, para existir. Bichos maiores comem bichos menores. É a lei do mais forte, do mais poderoso. Já o homem devora tudo. E a terra devora a todos. Pronto, o ciclo está completo. A luta pela vida é uma batalha cósmica. Sóis e planetas se olham, se atraem e se desejam, enquanto seguem aventureiros, girando em velocidade alucinante pelo espaço infinito. Há um fascínio considerável na espiral das galáxias, uma beleza que só pode ser admirada de longe. Mas sua magnitude não é suficiente para garantir nenhuma segurança. Eis que de repente surge um buraco negro em uma curva qualquer do universo e, desferindo um golpe fatal, digere todos aqueles mundos. Nem a luz escapa, nem as estrelas se salvam. A luta pela vida é um eterno banquete. Mas ainda não sei quem é que come o buraco negro. Deve existir alguma boca fantástica, capaz de deglutir o temido vilão sideral. Deve existir algum megaestômago, capaz de assimilar o indigerível. Deve existir o avesso do buraco, seu antípoda, que por sua vez será engolido de uma só vez por algum fenômeno inominável que se esconde nas dobras da imaginação. E assim por diante. A luta pela vida é esquecer a voracidade e os combates que se desenrolam no firmamento e botar os pés no chão, olhar em volta, encarar as dificuldades, resolver os problemas, enfrentar os desafios, mesmo que para isso seja preciso comer o pão que o diabo amassou. E mesmo que esse pão esteja recheado de preguiça e desânimo.
Escrito por Sílvio Ferreira Leite às 23h51
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